
Para quê sentido melhor nesta vida do que você? Oras, talvez você possa dizer-me quanto o amor pode ser doloroso, você possa dizer-me o quanto és imperfeito e contar quantos erros já cometera, quantas vezes me fizera chorar, ou até mesmo sorrir em meio das lágrimas. Não me importo com os detalhes, eles podem ser importantes, mas se eu te amo, não significa que irei desistir disso tudo que temos, ou tivemos. Pois a cada sorriso que aparece em seus lábios, bom, eu sorrio também, como se fizéssemos parte de alguma sincronia qualquer. Duas pessoas perambulando por este mundo sem sentido. Duas pessoas incrédulas procurando algum motivo maior para viver. Até que me conformei, me conformei que até quando a desgraça cai sobre nós, eu não desisto de você. Eu não me canso. Não sei ao certo se posso dizer que eu te amo, pois essas três palavras estão tão banalizadas que tenho o medo, o desespero, de que você ache que seja um sentimento qualquer. Hanna – CappuccineAndCigarrettes
1 year ago
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Sentido Literal
As duas irmãs, ainda pequeninas, estavam entre tapas e socos por causa de uma simples coroa de ouro puro com pedras preciosas, enquanto seu pai, sem se preocupar, degustava uma boa taça de vinho, que por pura sorte, os cacos da mesma não lhe cortavam. Sua mãe lia, sem cessar, Carlos Drummond de Andrade. O autor resmungava enquanto a velha rabugenta o virava para a mesma ler outra palavra. Oras, quem mandou escrever em seu próprio corpo? Seu irmão se remexia em seu trono, as formigas o pinicavam para que ele ficasse de pé, mas como era teimoso, não fazia questão de se levantar. Enquanto seu outro irmão fazia questão de se certificar que havia colocado a porção certa de felicidade em um prato, aliás, ele é o que ele come, não é mesmo? Hanna — Cappuccine And Cigarrettes
1 year ago
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Ela pintara o céu de azul-celeste. Coloriu a grama com o verde mais intenso e vivo que seus lápis permitiram-na. Borrou o sol de amarelo com laranja. Traçou o riacho de verde-água e multicoloriu os peixes que ali brincavam. Desenhou, em seguida, uma árvore do tipo castanheira, com a sombra extensa e fresca que alcançava a beira do rio. Riscou mais dois jovens que descansavam por ali. O cabelo da moça era vermelho-sangue; os fios encaracolados do rapaz, preto-carvão. Eles tinham sorrisos estampados nos rostos rosados. Eles estavam felizes.
Ela colocou-se de pé com dificuldade, movimentar-se com todos aqueles fios interligados em seu corpo era extremamente difícil. Colou, com fita adesiva, o desenho recém-feito na parede defronte seu leito. Voltou para o lugar que não deveria ter saído e observou seus rabiscos, uma lágrima caiu por sua bochecha magra. À hora havia chegado. Seus olhos fecharam-se com um ultimo suspiro. Seu coração parara de bater.
Em algum lugar distante dali, longe de tudo e todos, ela estava vivendo a cena de seu desenho. E finalmente estava feliz. Seu futuro chegara mais rápido que ela previra e trouxera de brinde a morte.
1 year ago
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Desastres detalhados.
Um tropeço em seu próprio pé e a garota já conseguia ver com clareza o chão a sua frente. Perambulando de lá para cá em seu quarto e de repente seu uivo de dor se tornara um eco, havia batido o dedo mindinho na cômoda. Pegou a tigela para por seus cereais matinais e o leite fugira da tigela como se estivesse sendo preso. Pisou em cocô de um cachorro sarnento. Chorava por ter ralado o joelho. Derrubava tudo o que tocava. Copos, pratos, talheres… Todos substituídos por meras réplicas compradas por um e noventa e nove em um camelô qualquer. Chave quebrada na fechadura, sumiços de objetos, dedos presos em portas, carros, janelas… Já se tornavam coisas normais. Fotos feias, unhas quebradas e marcas pelo corpo, esse era o seu registro. Já fraturara o braço duas vezes, a perna direita apenas uma vez, a esquerda umas dua. Doze pontos na cabeça, quatro no queixo, três ossos quebrados, sete trincados e é cega. Não completamente, mas contém 13 graus de miopia, um caso grave, eu considero. Livros molhados pelo café frio, sapatos enlameados com saltos quebrados, espelhos trincados. A diversão em ser o desastre em pessoas é poder desfrutar da solidão e do silêncio em tão tamanha paz que ninguém se da o direito de querer pensar em interferir. Hanna – Cappuccine And Cigarrettes
1 year ago
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Aprendiz de assassina.
Ela só pôde ouvir a gritaria quando a escuridão apareceu. Todos comemorando porque havia acabado a luz em plena sexta-feira de prova. Os professores, angustiados, perderam a paciência em dois segundos com a gritaria, todos os alunos foram postos ao pátio da escola enquanto a diretora robusta resmungava algo em alemão. Todos estavam animados, não se calavam por um segundo e a menina continuava no meio da multidão, como se estivesse perdida. “Oras, porque todos eles são tão idiotas?” Pensava a menina revirando seus olhos amendoados e pingarreando. “Ainda acho que todos devem morrer, isso sim seria algo para nós gritarmos e dermos vivas!” A aprendiz de psicopata não fazia questão de estar ali então com um ato veloz e perspicaz apenas colocou seus óculos de sol e foi embora enquanto a diretora praguejava e fazia questão de todos os alunos não entenderem bulhufas. Com risinhos idiotas e sem sentido a garota caminhava até o portão principal do colégio esperando que alguém a notasse quando ela tirasse sua faca da bolsa. Para a infelicidade deles, ninguém a notou e o ódio invadiu seu corpo fazendo com que a vontade que ela criara para matar todos fosse inutilmente o único motivo para fazer tal ato. Com apenas um giro graciosamente infeliz, ela se dirigia a diretora ríspida. Invadiu o pequeno palco que havia na escola e a única coisa que fez fora esfaqueá-la enquanto todos a observavam perplexos. Quando o sangue jorrava sem cessar do corpo da mulher ela foi em direção a plateia, seu sorriso aumentou e foi aí que todos decidiram correr. “Diabos, como é que eu vou ser uma assassina se eu não consigo nem ao menos fechar um portão para matar mais de 100 pessoas?” A pressa que a garota tinha era tão evidente quanto a sua vontade de exterminar um por um, enquanto passava por fileiras e mais fileiras de estudantes amontoados, ela fazia questão de matar a todos que cruzavam o seu caminho. O sangue em seu rosto não se comparava com o sorriso que ela esboçava descaradamente. Seu prazer era, com certeza, a gratificação disso tudo. Hanna – Cappuccine And Cigarrettes
1 year ago
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